Florestas amazónicas: alerta sobre mudanças irreversíveis na diversidade de espécies de árvores

Estudo analisa fatores que alteram as funções ecológicas e afetam o equilíbrio do ecossistema tropical A transformação da Amazônia como resultado da atividade humana afeta aspectos profundos, como a diversidade biológica das florestas. Os cientistas alertam em seu estudo que o desmatamento, os incêndios e a deflorestação levam a uma redução drástica na quantidade e diversidade de espécies de árvores. A análise foi publicada na revista Global Change Biology. Esta questão ganha especial relevância no contexto da COP30, que decorrerá até 21 de novembro, onde a atenção de todo o mundo se concentra no papel da Amazônia na agenda climática global. Enquanto representantes de diferentes países discutem ações futuras para combater as alterações climáticas e medidas para proteger a maior floresta tropical do mundo, esta investigação científica fornece evidências das inúmeras consequências da intervenção humana.

Alterações profundas na diversidade e evolução das florestas

De acordo com o artigo científico, esse impacto afeta não apenas as espécies maiores ou mais comuns, mas também reduz a diversidade de espécies pequenas e menos comuns. O trabalho mostra que a transformação antropogênica altera tanto a quantidade de espécies diferentes quanto as funções desempenhadas pelas árvores e suas ligações evolutivas dentro da floresta. A equipa de investigadores selecionou 25 313 árvores grandes e 30 070 árvores pequenas em 215 áreas localizadas em duas regiões da parte oriental da Amazônia brasileira. Essas áreas representam diferentes graus de impacto antropogénico, desde florestas primárias intocadas até florestas secundárias, ou seja, áreas onde a vegetação reaparece depois de a zona ter sido totalmente desmatada ou alterada e ter sofrido intervenção.

Os dados recolhidos permitiram afirmar que «as alterações humanas afetaram a diversidade taxonómica, funcional e filogenética de ambos os grupos de árvores, independentemente do peso da dominância nas comunidades afetadas», conforme indicado no documento. Os cientistas alertam que as perturbações não só reduzem o número de espécies, tipos funcionais e linhas evolutivas, mas também alteram a sua identidade, uma vez que, após as alterações antropogénicas, predominam as espécies pioneiras, que crescem rapidamente e colonizam territórios recentemente perturbados, enquanto as espécies maiores e mais duradouras desaparecem. O artigo afirma que as florestas secundárias têm menos diversidade e uma composição biológica e evolutiva mais heterogénea em comparação com as florestas primárias não perturbadas. As comparações estatísticas realizadas pelos autores mostram que as florestas desmatadas e queimadas apresentam diferenças tão notáveis em comparação com as florestas intactas quanto as florestas secundárias, o que põe em causa a ideia de que as florestas amazónicas podem recuperar facilmente após danos intensos.

O estudo explica que o número de espécies diferentes e os vários tipos de funções que as árvores desempenham na floresta mudam mais rapidamente sob a influência humana do que a diversidade da sua história evolutiva. No entanto, todas estas formas de diversidade são afetadas, uma vez que a forma como as espécies interagem e se relacionam na comunidade muda após a intervenção humana. As características funcionais avaliadas incluíram 20 características, entre as quais espessura da casca, densidade da madeira, área foliar e concentração de micronutrientes. Parte desses dados foi coletada diretamente em campo e outra parte em fontes bibliográficas especializadas. Os investigadores também construíram uma árvore filogenética que incluía todas as espécies registadas.

Perspetivas para a gestão e proteção das florestas da Amazônia

O estudo destaca dois pontos centrais para orientar as políticas públicas e a gestão da Amazônia. Em primeiro lugar, ele enfatiza que a proteção das áreas primárias intactas é indispensável, pois essas florestas conservam a maior diversidade e heterogeneidade biológica e filogenética. Em segundo lugar, afirma que as florestas primárias perturbadas, embora mais pobres do que as intactas, conservam um nível de biodiversidade mais elevado do que as florestas secundárias e devem ser objeto de atenção especial para evitar a sua degradação total. Os autores alertam que «a combinação de baixas taxas de crescimento de espécies de longa duração e vida longa de espécies pioneiras indica que as comunidades arbóreas permanecerão alteradas por mais de um século, mesmo que não ocorram novas perturbações». Eles também indicam que a composição alterada dessas florestas pode limitar a capacidade do sistema amazônico de fornecer serviços ecossistêmicos importantes, como captura de carbono, regulação do clima e preservação da diversidade genética.

Embora a COP30 se concentre principalmente no carbono, vincular a discussão sobre o clima à biodiversidade é fundamental para superar a crise climática e a crise da biodiversidade. Em última análise, a biodiversidade é a garantia da prestação de serviços ecossistémicos, como a captura e o armazenamento de carbono. Considerando que as florestas alteradas têm uma composição de árvores empobrecida e diferente, presume-se que vastas áreas da Amazônia já não sejam capazes de fornecer toda a gama de serviços ecossistémicos presentes nas florestas primárias intactas», explicou a Dra. Erika Berengeir, autora do estudo. O artigo enfatiza a necessidade de que as estratégias de restauração e as políticas de conservação reconheçam a heterogeneidade funcional e evolutiva dos diferentes tipos de florestas, em vez de se limitarem apenas à contagem das espécies presentes.

Silvia/ author of the article

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