Esqueça Matrix: uma nova prova matemática encerra o debate sobre se o universo é uma simulação

Os algoritmos são, sem dúvida, a chave para entender por que não podemos estar num «computador alienígena» E se tudo o que vemos, sentimos e experimentamos não for real? É uma das ideias mais fascinantes da ficção científica e da filosofia moderna, na qual se propõe que tudo o que nos rodeia é uma autêntica simulação de computador de alguma civilização superior, como se fôssemos literalmente sims. E tal é a sua magnitude, que a ciência teve de sair para desmentir esta ideia.

O problema. A «hipótese da simulação» passou de uma simples premissa de filme para um debate sério nos círculos tecnológicos e físicos. O argumento costuma ser estatístico: se uma civilização pode criar uma simulação da realidade, provavelmente criará muitas. Essas simulações poderiam, por sua vez, gerar as suas próprias simulações e, nessa «pilha» infinita de realidades, as probabilidades de que o nosso universo seja original são quase nulas. E embora este tenha sido um tema muito moderado entre os filósofos, a ciência também quis entrar de cabeça com uma investigação para dar resposta a um problema dentro da física fundamental e da matemática pura. E a resposta é bastante clara: não estamos numa simulação.

O estudo. Uma equipa internacional de físicos, que inclui o Dr. Mir Faizal, da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC), e o renomado físico Dr. Lawrence M. Krauss, demonstrou matematicamente que o universo não pode ser uma simulação de computador. As suas descobertas, publicadas no Journal of Holography Applications in Physics, não só refutam a ideia, como revelam algo muito mais profundo sobre a natureza da realidade: o universo baseia-se num tipo de «compreensão» que existe para além do alcance de qualquer algoritmo.

A realidade. Para entender essa prova, devemos primeiro entender o que é a “realidade”. A física moderna já não vê o universo como “matéria” tangível movendo-se em um espaço vazio, mas, graças a Einstein, fundiu espaço e tempo para agora demonstrar que o mundo microscópico é probabilístico. A teoria mais aceita atualmente centra-se na gravidade quântica, que sugere que o espaço e o tempo são fundamentais. São «emergentes»: brotam de algo mais profundo, algo mais parecido com informação pura. Desta forma, os físicos assumem que uma “Teoria de Tudo” (ToE) que unifique a gravidade e a física quântica seria, em essência, um grande sistema axiomático: um conjunto de regras significativas e cálculos algorítmicos a partir dos quais se poderia “computar” e gerar todo o universo, incluindo o próprio espaço-tempo.

Teoremas da Incompletude. Em 1931, o lógico Kurt Gödel demonstrou algo que dinamitou os alicerces da matemática: qualquer sistema formal (como um programa de computador ou um conjunto de leis físicas) que seja suficientemente complexo para incluir a aritmética básica será incompleto ou inconsistente. Por «incompleto» entende-se que existirão afirmações verdadeiras dentro dos próprios sistemas que nunca poderão ser demonstradas seguindo as suas próprias regras. É como o famoso paradoxo que diz «esta afirmação é verdadeira, mas não pode ser demonstrada». A equipa de Faizal argumenta que qualquer ToE puramente algorítmica sofreria desta limitação. Haveria sempre «verdades gödelianas» sobre a física do universo (talvez sobre microestados específicos de buracos negros ou a natureza da singularidade) que esse sistema computacional não poderia provar.

 

Duas camadas. Se o universo algorítmico é “incompleto”, como é que a nossa realidade parece funcionar? Os investigadores propõem que a realidade não é apenas o algoritmo. É isso que permite ao universo “saber” que essas verdades de Gödel são verdadeiras, embora o algoritmo por si só não possa prová-las. É uma camada fundamental da realidade que transcende a simples computação.

A prova final. Com todas as peças sobre a mesa, a refutação da hipótese da simulação torna-se clara e elegante. Em primeiro lugar, toda simulação é logarítmica, ou seja, um computador executa um problema seguindo regras muito concretas que não deixam margem para dúvidas. Desta forma, ela colide frontalmente com as nossas teorias que não são «perfeitas» nas suas demonstrações. Mas não ficam por aqui, pois os cientistas apontaram que um algoritmo só pode simular a parte algorítmica, fazendo com que um computador só pudesse, na melhor das hipóteses, emular a parte computacional e incompleta do nosso universo. E o mais importante, sem dúvida, é que o nosso universo é mais do que um algoritmo, já que, como demonstram os teoremas de Gödel, a realidade física completa deve incluir uma camada não algorítmica para ser consistente e completa.

Silvia/ author of the article

O meu nome é Silvia. Escrevo artigos que o ajudarão na sua vida quotidiana. Eles ampliarão os seus conhecimentos e pouparão o seu tempo.

silvescomercial